segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Glossolalia ou Xenoglossia? [PARTE 4]




Glossolalia ou Xenoglossia? [PARTE 4]

Transcrição do debate entre os teólogos Luís Roberto de Souza e Renato Oliveira Pimentel, sob o tema: "Glossolalia ou Xenoglossia?", ocorrido dia 22 de Outubro de 2016 no Grupo de EstudosTeologia com Propósito”.

         Veja abaixo a posição de cada teólogo neste tema:

Luís Roberto de Souza:
“Neste debate vou defender o dom de línguas como a xenoglossia, ou seja, creio que em toda a referência que a Bíblia faz deste dom é uma manifestação de um dom que consiste em o cristão falar em um idioma humano sem ter aprendido previamente. Tal capacitação é o chamado dom de línguas referenciado por Lucas em Atos, Marcos no evangelho e Paulo na sua primeira carta aos Coríntios.”


Renato Oliveira Pimentel:
“Eu irei defender a Glossolalia, que inclusive é uma palavra que se encontra nas escrituras gregas em detrimento de Xenoglossia que não se encontra. Pretendo para isso me ater à hermenêutica e exegese bíblica, somente, dispensando, portanto todo empirismo envolto no assunto.”


Confira abaixo o desenvolvimento da quarta parte deste debate, onde os debatedores participam respondendo as perguntas enviadas por membros do grupo que estiveram acompanhando o debate ao vivo.
Para ler a terceira parte deste debate, clique aqui.



Pergunta enviada por Adriano Borges
Renato, a Bíblia estabelece alguns parâmetros para o cristão usar o dom de línguas (glossolalia), podemos ver o modo correto de usar em 1 Coríntios 14.27: E, se alguém falar em língua desconhecida, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e por sua vez, e haja intérprete. [ACF]

1- No caso de alguém falar em línguas;
2- Que não seja mais que 2 pessoas;
3- No máximo 3 pessoas;
4- E que seja sucessivo (um após o outro);
5- Que haja no local alguém que interprete.

O versículo 28 diz que, se não tiver um intérprete, então o falante deve ficar calado, falando apenas em pensamento com Deus. Então, a minha pergunta é: porque alguns líderes incentivam os membros da igreja a falarem em línguas, usando frases tais como: “quem é batizado com Espírito Santo é livre para dar uma rajada de línguas”, depois dessas palavras geralmente os membros começam a falar. Por que não é seguido o modelo bíblico para que os fieis possam falar em línguas?

Resposta de Renato Oliveira Pimentel
Adriano, essa pergunta deveria ser feita exatamente a essa pessoa em questão que incentiva desta maneira, porém, existe um contexto que pode elucidar um pouco. Na igreja de Corinto, não havia microfone, nem caixa de som. Não tinha um dirigente dando oportunidades para as pessoas, portanto, eles se uniam e juntos adoravam e cada um na sua vez, se expressava como podia ou sentia. Como o próprio Paulo disse. "Se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, cale-se o primeiro." (vs 30) Era cada um de cada vez! E inclusive a profecia também foi regulada no vs 29... Mas o falar em línguas durante o culto, não era proibido, pelo contrário: "não proibais o falar em outras línguas." (vs. 39) Era somente aconselhado que falasse entre eles mesmos e Deus (28) para não atrapalhar o andamento do culto e a edificação dos irmãos. Hoje em dia, se alguém desse oportunidade para alguém falar em línguas, cairia no mesmo erro dos Corintos, mas acredito que ninguém faça isso... Ou faz? Se você já recebeu uma oportunidade para falar em línguas, me diga depois. Portanto, falar em línguas na igreja não tem nada demais.


Pergunta enviada por Diego Fernandes - Diadema-SP
Luís, como poderei ser edificado falando um idioma humano (árabe, por exemplo)? Em 1 Coríntios 14.4 diz: “O que fala em língua edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja”

Resposta de Luís Roberto de Souza:
Primeiro eu preciso argumentar que todo dom Divino causa a edificação. Edifica o corpo (igreja) e edifica a pessoa, como expresso em Efésios 4 e 1 Coríntios 12, os dons são de aplicação coletiva e nunca individual. Logo não se pode dizer que para ser edificado eu preciso falar em línguas. Segundo é que quando Paulo diz que há edificação no ato de falar em línguas eu quero lembrar que se trata de um dom Divino que mesmo sem que haja entendimento o espírito humano é fortalecido e alegrado inevitavelmente.
Agora quero atentar para o fato de que em todo os capítulos 12,13 e 14 de I Coríntios, o tom da conversa de Paulo é um chamado ao entendimento de cunho espiritual e intelectual; é um chamado para  a ação da palavra salvando e edificando. A ideia de que só sou edificado porque falo em línguas não é bíblica. Eu também sou edificado falando em línguas, mas o entendimento é a tônica do dom. Portanto não importa o idioma ou o dom. Todos edificam a pessoa. Paulo desafia os cristãos de Corinto a usarem tal dom para edificar de modo coletivo.


Pergunta enviada por Davi Faria de Caires (Campinas-SP):

Renato,
De acordo com pentecostalismo clássico, o batismo pelo Espírito Santo ocorre na conversão com todo crente, tal como também defendem os cristãos tradicionais. Já o batismo no/com o Espírito Santo é uma capacitação para obra missionária e evangelística, evidenciada pelo falar noutras línguas. Considerando como verdadeiro que o Batismo com o Espírito Santo seja evidenciado por falar noutras línguas [glossolalia], pergunto:

1. Porque muitos cristãos não são batizados com o Espírito Santo?

2. Deus em sua soberania é uma explicação?

3. Se sim, então por que devo buscar o Batismo no Espírito Santo se o recebimento depende da vontade soberana de Deus?


Resposta de Renato Oliveira Pimentel:
Bem Davi, como você sabe (imagino eu), eu não defendo o pentecostalismo clássico, nesse tema eu sou carismático! Isso significa que não vejo o falar em línguas como um batismo com o ES, mas como um dom qualquer, como todos os outros.


Pergunta enviada por Mateus A. Maciel

Luís,

De acordo com a xenoglossia o falar em línguas seriam idiomas antigos e já existentes ou são dialetos humanos não conhecidos?


Resposta de Luís Roberto de Souza:
Essa pergunta tem uma resposta não muito clara. Mas no Evangelho de Marcos, Jesus Cristo promete as novas línguas. E lá ele usa o termo kainós glossa, que significa uma língua nova em qualidade mas não em idade ou criação. Por isso eu concluo que se tratam de qualquer idioma onde o evangelho foi ou será pregado como passível de ser falado por meio da xenoglossia.


Pergunta enviada por Diego Fernandes - Diadema-SP:

Renato,
         Embora o grego fosse mais conhecido, sabemos que o grego koine era uma espécie de inglês dos nossos dias. Mesmo assim você não acha que havia a necessidade de uma capacitação divina aos emissários com relação ao idioma?

Resposta de Renato Oliveira Pimentel:
Na verdade, o Grego tinha uma amplitude MUITO maior do que o inglês dos nossos dias... O general de Alexandre impôs Idioma ao povo de modo que até a bíblia teve que ser traduzida para a "LXX" [septuaginta]. E em nenhum lugar onde o povo Judeu foi pregar, houve menção ao auxilio desse dom de idioma. Portanto acredito que não havia, como não houve a necessidade desse dom de "tradução simultânea" na pregação do evangelho primitivo.


Pergunta enviada por Diego Fernandes - Diadema-SP:
Luís,
Por que motivo vou orar/falar com Deus em outro idioma humano? Veja 1 Coríntios 14.2 “Porque o que fala em língua não fala aos homens, mas a Deus; pois ninguém o entende; porque em espírito fala mistérios”

Resposta de Luís Roberto de Souza:
Justamente era esse o questionamento de Paulo, falar a Deus quando se deveria falar aos irmãos ou incrédulos. Não há referência clara sobre que se deve orar em línguas como um modo perfeito ou mais profícuo de oração. O homem não sabe orar de modo algum, é o Espírito Santo quem o ajuda. Orar em línguas não é ordem apostólica para todos, pois bem sabemos que nem todos poderão ter tal dom. Orar em línguas era um costume sem fundamentação bíblica presente apenas em Corinto por eles extrapolarem no uso do dom. Portanto o orar em línguas não é uma norma universal. A Bíblia não ensina isso.


Pergunta enviada por Cleuberth Lima, Icatu/MA

Luís e Renato,
Em sentido prático, como alguém se auto-edifica emitindo sons vocais inéditos ou costumeiramente repetitivos, sem significado e significante para um terceiro que ouve, e que não têm nenhum significado cognoscível para a própria pessoa que fala?

Resposta de Luís Roberto de Souza:
Erroneamente foi criada nos círculos pentecostais essa ideia. Não questiono a sinceridade da pessoa, mas há equívocos sinceros. Na prática não creio haver edificação; somente euforia.

Resposta de Renato Oliveira Pimentel:
A parte de "costumeiramente repetitivos" não está na bíblia. Como eu disse a principio, me basearei somente na hermenêutica e exegese bíblica e não em empirismos. Cleuberth, como alguém se edifica orando (pergunta retórica)? Sendo que a pessoa não obtém resposta, mas fica falando "sozinha"? Você não está edificando a sua mente, mas o seu espírito! Pois ele está falando, orando ou louvando a Deus numa língua espiritual que só o seu espírito e o de Deus conseguem entender! O espírito que fala, o espírito é edificado! Não queira entender teologia apenas com racionalismo humano. O racionalismo é um ferramenta sempre refém da hermenêutica e não o contrário!



Pergunta enviada por Cleuberth Lima, Icatu/MA

Renato,

Em português, o texto grego de Daniel 3.4 é traduzido assim: "Nisto, o arauto apregoava em alta voz: Ordena-se a vós outros, ó povos, nações e homens de todas as línguas". No texto grego da Septuagina, a expressão que equivale a "línguas" aparece assim: γλωσσαι. Na tradução portuguesa do Apocalipse 14.6, está escrito assim: “Vi outro anjo voando pelo meio do céu, tendo um evangelho eterno para pregar aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, e tribo, e língua, e povo". No texto grego do NT, a expressão que equivale a "língua" aparece assim: γλωσσαν. Esses textos apontam para os idiomas dos diversos povos contemplados nas proclamações descritas pelos escritores, ou falam dos membros que esses povos carregam na boca?

Resposta de Renato Oliveira Pimentel:
Cleuberth, eu não sei onde eu tenho falhado em explicar algo tão simples! A palavra "glossa" é literalmente "língua", um membro inferior que fica na boca. Porém, as palavras podem ser usadas de forma figurada, exemplos:

"Qual língua vc fala" <-- Nesse caso, língua esta sendo usada de forma figurada para se referir a um idioma!

"O garoto me mostrou a língua" <-- Nesse caso, ela está sendo usada no seu sentido literal!

Mas como eu disse, usando no sentido figurado, as palavras podem significar quase qualquer coisa. Exemplos:

"Fulana tem a língua grande" <-- Isso quer dizer que fulana é linguaruda e etc...

Mas a palavra se refere ao membro do corpo em todas as vezes. No caso de ser usada no sentido figurado, é necessário ter o contexto. No caso do grego em particular, a palavra que vem antes ou depois pode definir o sentido da palavra. Portanto, repito: Glossa quer dizer, literalmente, LÍNGUA!


Pergunta enviada por Antônio Caires de Campinas/SP

Renato,

Alguns teólogos da vanguarda pentecostal afirmam categoricamente que o dom de línguas é a porta do entrada para os demais dons espirituais, de modo que sem o dom de línguas é impossível exercer outros dons. Qual a base bíblica para tal afirmação?

Resposta de Renato Oliveira Pimentel:

Não existe base bíblica para isso a meu ver! Nem todos falaram em línguas. Cada um tem uma função no corpo e se todo o corpo fosse boca, não seria boca. Como Paulo diz no decorrer do Capítulo 12 de 1 Coríntios.


Pergunta enviada por Cleuberth Lima, Icatu/MA

Renato,
Não seria coerente uma tradução livre do verso "2",  assim:

"Quem fala em línguas estrangeiras durante a reunião cúltica de vocês, ó Corintos, não está se comunicando com nenhum dos irmãos aí reunidos, haja vista que ninguém consegue entendê-lo. Nem mesmo o que fala está entendendo o que diz. Assim, somente Deus consegue entendê-lo"?


Resposta de Renato Oliveira Pimentel:

Não Cleuberth, a palavra de Deus deve ser traduzida com o máximo de fidelidade ao texto, sem tentar interpretações do texto. Uma vez traduzida, devemos ir para o campo do debate testar nossas interpretações. E seria "Ó Coríntios".


Pergunta enviada por Cleuberth Lima, Icatu/MA

Renato,

Parte do texto de Atos 2, diz:

"6  Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua. 7  Estavam, pois, atônitos e se admiravam, dizendo: Vede! Não são, porventura, galileus todos esses que aí estão falando? 8  E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? 9  Somos partos, medos, elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, 10  da Frígia, da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia, nas imediações de Cirene, e romanos que aqui residem, 11  tanto judeus como prosélitos, cretenses e arábios. Como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus?"


Ao ouvirem aquela "voz" (phone = som emitido, mesma expressão usada por Paulo em Coríntios), ficaram perplexos pois ouviam falar, cada um, em suas próprias línguas (dialecktos) materna (v. 8), o que equivale a dizer que os ouviram falar em suas próprias línguas (glossas) v.11. Como glossa (v. 11 - nossas próprias línguas) usado aí no mesmo sentido prático de dialecktos (v. 8 - nossa própria língua materna) não faz referência aos respectivos idiomas daqueles indivíduos?


Resposta de Renato Oliveira Pimentel:

Quem disse que não faz? Como eu já disse, expliquei e tornei a explicar, glossa pode ser usado de forma figurada para se referir a idioma, mas significa literalmente língua. Mas a sua questão não reside nisso! O que eu já falei é que o texto diz que ou ouvintes "Escutaram" em seus próprios idiomas e não que os Discípulos falaram nesses tais idiomas.



Sobre os debatedores:
Luis Roberto de Souza
Casado, 37 anos, Técnico em Eletrotécnica, graduando em Tecnologia de Construção de Edifícios, possui curso básico em teologia, estuda teologia de maneira autodidata, é cristão Batista de tradição histórica. Administrador do Grupo de Estudos "Teologia com Propósitos". Co-Editor do Blog. Escreve semanalmente sobre o tema: “Teologia Paulina”. Contato: robertoluissouza78@gmail.com


Renato de Oliveira Pimentel
Casado, 23 anos, Técnico em Informática, Bacharel em Teologia pela Faculdade Betesda e Pastor local na Igreja Assembleia de Deus em Nanuque - MG.



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